Introdução
A estimulação do nervo vago (VNS, na sigla em inglês) é um tratamento cirúrgico usado em crianças com epilepsia que não responde aos remédios anticonvulsivantes. Ele importa porque cerca de 20-25% das pessoas com epilepsia não conseguem controlar as crises apenas com medicação e, na infância, a condição afeta de 3 a 5% da população, com 60% dos casos começando justamente nessa fase da vida. Este artigo explica, com base em uma revisão da literatura científica publicada na Revista Chilena de Neurocirugía, o que é a VNS, para quem ela é indicada, como funciona e o que se sabe sobre sua eficácia e segurança em crianças.
O que diz a evidência científica
O que é a epilepsia intratável e por que ela preocupa?
Epilepsia intratável (ou refratária) é aquela em que as crises continuam apesar do uso adequado de dois ou mais medicamentos anticonvulsivantes. Isso acontece em 20-25% dos pacientes com epilepsia. Quando a epilepsia começa na infância, o que ocorre em 60% dos casos, e não responde aos remédios, o impacto pode ir além das crises em si, afetando o desenvolvimento neurológico, o aprendizado e a qualidade de vida da criança e da família.
O que é a estimulação do nervo vago (VNS)?
A VNS é uma cirurgia reversível, ajustável e que não destrói tecido nervoso, usada para reduzir convulsões. Um pequeno dispositivo, semelhante a um marca-passo, é implantado sob a pele do tórax e conectado ao nervo vago no pescoço, enviando estímulos elétricos regulares que ajudam a diminuir a frequência e a intensidade das crises. A ideia de estimular o nervo vago para controlar convulsões foi descrita pela primeira vez em 1938, mas só foi testada em humanos em 1990.
Quais crianças podem ser candidatas à VNS?
Segundo a literatura revisada, os candidatos típicos à VNS são crianças com: crises que não melhoram com os medicamentos disponíveis (intratabilidade médica); ausência de resposta mesmo após outras cirurgias para epilepsia; epilepsia parcial complexa ou com generalização secundária em múltiplos focos cerebrais; e, frequentemente, algum grau de atraso no neurodesenvolvimento associado.
A VNS realmente reduz as crises?
Sim, mas de forma variável entre os pacientes, e raramente elimina as crises por completo. Uma meta-análise de Englot e colaboradores, reunindo 3.321 pacientes, encontrou redução média de 45% na frequência das convulsões. Em crianças especificamente, um estudo de Murphy e colaboradores com 100 pacientes mostrou que 45% tiveram redução de mais de 50% nas crises, e 18% ficaram sem convulsões por pelo menos 6 meses. Já Majoie e colaboradores, estudando pacientes com síndrome de Lennox-Gastaut (uma forma grave de epilepsia infantil), observaram redução de 50% ou mais em 25% dos pacientes.
A VNS melhora a qualidade de vida, mesmo quando não elimina as crises?
Sim, de acordo com a literatura revisada, 85% dos pacientes relataram melhorias significativas na qualidade de vida após a VNS, independentemente de as crises terem sido totalmente controladas ou não. Isso sugere que o dispositivo pode trazer benefícios que vão além da simples contagem de convulsões, possivelmente relacionados a mudanças no fluxo sanguíneo cerebral induzidas pela estimulação.
Quais são os riscos e efeitos colaterais da VNS?
Os efeitos colaterais mais descritos incluem infecção no local do implante (3-6% dos casos) e bradicardia (frequência cardíaca mais baixa que o normal), apontada como a complicação mais frequente. Em crianças, dificuldades de deglutição são relativamente comuns. Rouquidão, tosse e formigamentos (parestesias) também podem ocorrer. Complicações graves, como bloqueio cardíaco completo ou morte súbita, são raras.
A VNS compensa financeiramente para o sistema de saúde?
Os estudos de custo-efetividade citados na revisão sugerem que sim. Majoie e colaboradores calcularam um custo de 16,93 euros para cada convulsão evitada, e Aburahma e colaboradores estimaram uma economia de 3.885 dólares por paciente após o início do tratamento com VNS, provavelmente relacionada à redução de internações e uso de medicamentos.
Explicação técnica / Discussão
De acordo com a revisão publicada na Revista Chilena de Neurocirugía (2019), a estimulação do nervo vago provoca alterações mensuráveis no fluxo sanguíneo cerebral, o que pode explicar parte do seu efeito antiepiléptico mesmo em pacientes cujas crises não desaparecem completamente. A literatura aponta eficácia particularmente relevante em síndromes epilépticas graves, como a síndrome de Lennox-Gastaut, e destaca que tanto pacientes com epilepsia generalizada quanto crianças em geral parecem se beneficiar do procedimento, apesar de historicamente terem sido grupos excluídos das aprovações iniciais do dispositivo, voltadas primeiro para adultos com epilepsia focal.
Os autores ressaltam que a VNS tem baixa dificuldade técnica e tempo cirúrgico reduzido em comparação com outras cirurgias para epilepsia, características que favorecem sua indicação em crianças. Ainda assim, o próprio estudo reconhece que a VNS “é um procedimento inicial e controverso”, com poucos estudos de longo prazo em população pediátrica, um ponto importante para pais e médicos ponderarem ao considerar essa opção terapêutica.
Conclusão
A estimulação do nervo vago é uma opção terapêutica válida para crianças com epilepsia refratária a medicamentos, especialmente quando a cirurgia de ressecção (remoção da área cerebral que causa as crises) não é possível. Os sinais de alerta que justificam procurar um neurocirurgião incluem crises que persistem apesar do uso correto de dois ou mais medicamentos anticonvulsivantes, epilepsia com início na infância sem resposta ao tratamento clínico, e impacto progressivo das crises no desenvolvimento e na qualidade de vida da criança. Embora a VNS reduza a frequência das crises em boa parte dos pacientes e melhore a qualidade de vida mesmo quando as convulsões não cessam totalmente, os estudos de longo prazo em crianças ainda são limitados, e a decisão deve ser individualizada com uma equipe de neurologia e neurocirurgia pediátrica. Se seu filho ou filha convive com crises epilépticas que não melhoram com os remédios prescritos, vale conversar com um neurocirurgião especializado em epilepsia para avaliar as opções disponíveis.
Leia o artigo científico completo:
Epilepsia infantil intratable: ¿la estimulación del nervio vagal es una opción de tratamiento?
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